Apontamento histórico

É do conhecimento comum que foi a cultura islâmica que adaptou a cerâmica vidrada a funções de revestimento e, consequentemente, criou um novo objecto – o azulejo.

Até ao século XVIII o azulejo é usado apenas no interior, forrando paredes. Conhecem-se excepções como é o caso do Palácio de Campo do Marquês de Fronteira e Alorna, (salientando-se o excepcional painel da galeria dos reis fabricado em 1670) que tinha azulejos a forrar quase todo o espaço exterior e interior – azulejo no exterior da casa mas nos jardins da própria casa que, segundo José Meco[1], não deixam de ser azulejos de interior. Outro exemplo é o caso do painel da casa de pesca, na antiga Quinta de Cima do Marquês de Pombal, fabricados na fábrica do Rato entre 1769 e 1770, igualmente nos jardins da quinta. Apesar do azulejo estar exposto à intempérie, as pessoas comuns não lhe tinham acesso, não sendo deste modo uma arte pública como o azulejo de fachada que este trabalho aborda.

No século XIX surge uma nova funcionalidade – o uso do azulejo, material moderno, duradouro e de forte expressão decorativa, como revestimento no exterior das casas e influente na arquitectura – que com o advento da revolução industrial, abriu portas para a produção maciça de azulejos de padrão. Os tapetes azulejares do século XVII serviram de inspiração.

No princípio do século de XX, nomeadamente após um período de recessão concretamente neste segmento industrial, assiste-se a uma época de aplicação azulejar muito mais cuidada, já não preenchendo fachadas completas mas colocando os azulejos como elementos integrantes da arquitectura – falamos do azulejo Arte Nova e Arte Deco. Por outro lado assiste-se também à proliferação de situações revivalistas, como é caso do azulejo de figura-avulsa, característico da produção holandesa do século XVII-XVIII, nomeadamente produzido pela Fábrica de Massarelos. Poderemos incluir ainda neste imaginário os diversos painéis de reminiscências revivalistas historicistas civis, tão virtuosamente ilustrado pelos painéis de Jorge Colaço para a Estação Ferroviária de S. Bento ou ainda os painéis de enquadramento religioso como os da Capela das Almas ou os desenhados por Silvestre Silvestri para a Igreja do Carmo. Os painéis da Capela das Almas constituem “bíblias descomunais, ilustradas e dirigidas para as massas”[2] e inserem-se numa corrente estética de filiação romântica que tenta recuperar as linguagens estéticas do passado – século XVIII.

“O uso do azulejo decai novamente nos começos do século XX, em Lisboa ele não existe, praticamente nas fachadas desde 1918-20 até 1947-48.”[3]

A partir da década de 50, vai ser experimentado por artistas plásticos contemporâneos que nele aplicam as novas linguagens do século, nomeadamente por Almada Negreiros, Maria Keil, Sá Nogueira, Júlio Pomar entre outros.


[1] Meco (1989).

[2] Monteiro (2001).

[3] Loureiro (1962).

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