Técnica – produção de azulejo

Inicialmente os azulejos eram produzidos manualmente pela técnica das placas. Posteriormente, com a industrialização, os processos utilizados passaram a envolver maquinaria a vapor utilizando moldes. Os azulejos de meio relevo das fábricas de Lisboa usavam moldes de madeira ou de metal. As fábricas do Porto que produziam azulejos relevados usavam moldes de madeira ou de gesso – Carvalhinho, Devesas e Massarelos. São representações de malmequeres ou de outros motivos florais.

A selecção das argilas era cuidadosamente efectuada de acordo com a sua plasticidade se bem que o seu controlo não fosse muito cuidado pois encontramos nos elementos mais antigos diferentes tipos de barro não uniformemente amassados, com elementos desengordurantes de grande dimensão, como acontece com o barro cozido e moído ou vacúolos provocados pela presença na pasta crua de elementos vegetais. Todavia, à medida que se caminha para o fim do século XIX as pastas começam a aparecer mais uniformes, finas e claras (ausência de impurezas de ferro contido nas argilas), resultantes da introdução de maquinaria que, por magnetismo, retirava da pasta estas impurezas. Estas novas técnicas de preparação do barro, permitirão a dispensa do óxido de estanho – opacizante – permitindo poupar recursos económicos e aproveitar a cor clara da pasta – esta técnica é apelidada de pó-de-pedra.

O processo de fabrico, se no início usava técnicas absolutamente manuais, tendeu ao uso do molde, numa primeira face apenas para uma das faces e posteriormente ao uso do molde e do contra-molde, começando-se então a aplicar tardozes não lisos para favorecer o assentamento. Com estes recursos técnicos mais avançados tornou-se possível a impressão do nome das marcas no tardoz. Todavia, esta situação não foi corrente em todas as fábricas, tornando-se por isso bastante difícil realizar uma peremptória atribuição dos elementos às fábricas. Outra situação que favorece esta dificuldade é o plágio que as diferentes fábricas faziam, sendo os elementos rapidamente copiados.

A produção de azulejos relevados teve lugar nas fábricas de Massarelos, Santo António do Vale da Piedade, do Carvalhinho e nas Devesas. Nos primeiros tempos de produção destes azulejos, que tanto caracterizavam a produção das fábricas do baixo Douro, eram utilizadas formas (moldes) enchidas manualmente com argilas gordas. Para evitar empenos e fracturas as partes mais grossas eram adelgaçadas pelo tardoz, retirando material. Com o tempo esta produção foi-se depurando permitindo elementos mais homogéneos, com menor probabilidade de fractura e de superior qualidade a um preço mais reduzido.

Elementos de meio relevo eram mais finos, com espessuras de cerca de 15 mm, ou seja metade da espessura dos elementos relevados. Esta produção foi posterior à de azulejos relevados. A técnica utilizada era mecânica, com recurso a moldes e contra-moldes. Esta produção viria a ser feita também nas Fábricas de Sacavém e do Desterro (Lisboa), em especial nas primeiras décadas do século XX[1].

É característico destes azulejos uma decoração baseada em motivos vegetalistas, nomeadamente florões, pequenas flores, folhas e ainda outros elementos fitomórficos.

Eram pintados manualmente sendo as cores mais usuais o branco, o amarelo, o azul e o verde e por vezes com apontamentos a vermelho.

Outra etapa decisiva foi a mecanização da pintura, conseguindo deste modo agilizar a produção através da técnica da estampilha. Esta técnica baseia-se no uso de uma ou mais máscaras permitindo apenas com a passagem de um pincel ou de uma trincha, de tamanho apropriado, preencher os vazios dessa área. Este procedimento permite a redução do tempo de pintura e uma maior uniformidade dos motivos, mantendo o efeito decorativo. A estampilha de inicio tinha uma grande simplicidade, usava uma só máscara com o fundo a branco e os motivos a azul, podendo por vezes conter alguns pormenores pintados manualmente.

A pintura manual era efectuada sobre os azulejos, usando o extrazido como apontamento da localização das linhas e das manchas, e como a correcção da pintura era difícil os pintores faziam previamente um esboço em papel semi-transparente que era de seguida perfurado pelos contornos. Este desenho era então passado para o azulejo, de fundo branco, ainda não cozido, por meio de uma boneca de pano cheia com grafite ou carvão. Delineadas assim as linhas principais e o motivo enquadrado no formato, a pintura era mais fácil, mais rápida e passível de repetição.

Mais tarde, a estampilha aumenta de complexidade, utilizando por vezes cinco ou mais cores. Usualmente cada cor possuía uma estampilha, sendo necessárias tantas estampilhas quantas as cores utilizadas. A estampilha era executada em papel que eram encerado, sendo o motivo a pintar recortado do papel, deixando assim aberturas para a pintura. Com a evolução passaram a utilizar-se máscaras em zinco. Já no século passado esta técnica foi utilizada recorrendo não à pincelagem mas ao aerógrafo. A aerografagem foi principalmente feita na fábrica de Sacavém. A sua produção foi limitada, sendo raras as fachadas usando elementos com esta técnica. A técnica de pintura de estampilha a pincel era executada sobre o azulejo já com o banho de base – opaca – que é denominada pintura sobre-banho. Outra técnica que foi passível de ser usada, devido à clareza das pastas, foi a técnica sob-banho. Esta pressupunha que se realizasse primeiro a pintura, sobre a qual se aplicava um banho transparente à base de chumbo. Como já foi referido esta metodologia poupava recursos económicos, nomeadamente no uso do estanho.

A técnica da estampagem ou decalcomania teve o seu aparecimento em Portugal em meados do oitocentos mas só se tornou uma prática mais usual na viragem do século XIX para o século XX. É uma técnica importada de Inglaterra. Consiste na impressão por prensagem mecânica de uma estampa sobre a peça vidrada, previamente cozida, seja com vidrado estanífero ou com um vidrado transparente. A pintura tinha que ser novamente cozida. As estampas eram obtidas por processos mecânicos através de impressão de matrizes de cobre ou zinco, impressas sobre papel. Para a sua aplicação, o papel era molhado, transferindo-se o motivo para a peça. A primeira fábrica a utilizá-la foi a de Sacavém, sendo nacionalmente conhecida a sua louça cavalinho. No Porto, a primeira fábrica que aplicou esta técnica foi a do Carvalhinho, usando gravuras de cobre, em 1853. Massarelos usou este processo só no início do século seguinte – 1901 – quando foi dirigida pelo inglês William MacLaren. Noutras fábricas – Miragaia, Santo António Vale da Piedade, Devesas e Pereira Valente –, aparecem referências ao seu emprego, não possuindo uma linha de produção completa mas comprando as estampas já confeccionadas. Todavia, pode-se referir que a sua aplicação em azulejo não foi corrente, não sendo muito usual encontrar azulejos deste tipo. A sua aplicação foi empregue, em massa, em louça de mesa.


[1] Veloso (1991).

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